segunda-feira, 24 de março de 2008

Sem porque, sem pra quê...


Olá, alguns dias sem aparecer.
Minha avó, meus primos e tios vieram passar a páscoa conosco, e devo confessar que foi bemmm manero revê-los.
A Izabela com o sotaque "leite quente", o Fernando com a calma contagiante, e a Vó com as guloseimas desenfreadas.
Muitos ovos de chocolate, risadas, churrasco no aniversário da tia Neuza.
Tempo suficiente para me atualizar nas novas frases do Dú, e claro, nas novas peripércias que ele apronta.
A maneira como ele cresce rápido, e aprende a pedir desculpas, e falar certinho, cada dia mais.
Os olhos azuis, cristalinos de alegria e pureza, de uma criança de 3 aninhos, os mais alegres das nossas vidas. Ele adora os Rangers, o vermelho principalmente.
O homem aranha preferido dele é o "peto".
Apesar do acidente que me fez queimar a lingua e o céu da boca, trazer muita dor, eu estou bem, e pude degustar o churrasco do tio, o peixe da vó e a costelinha de porco da Tia Mara.
O paladar ficou meio defasado, mas agora está tudo voltando ao normal.
(nunca comama bolinha de queijo fervendo, dá merda)
No sábado eu trabalhei bastante, fiz escova no cabelo, e maquiagem. Pra vir embora na chuva e de moto táxi ainda por cima. (primeira e última vez).
Ganhei um ovo lindo do Dé, sonho de valsa branco. É ele que estou devorando aí na foto. ;)
Hoje fomos ao shopping, jogamos boliche e dançamos. Um programa de primos. rsrsrs
Tô com saudade do meu pai, bastantona.

Queria de alguma forma ter escrito alguma coisa mais interessante, mas a minha vida é um livro aberto, e dividir com vocês é uma honra.
Eu recebi um e-mail, de um internalta não identificado, me humilhou bastante com frases estranhas, parecia me conhecer, e ao mesmo tempo querendo me ofender por ofender. Queria deixar claro que esse blog é MEU, com algumas convidadas, que esporadicamente escrevem aqui, a mais frequente é a Mayara, do post abaixo. Escrevo sobre tudo, mas principalmente textos que mesclam acontecimentos da minha vida, com textos poéticos ou melancólicos, de minha autoria. Escrevo sobre o que eu quero, e da maneira que eu quero. Ser chamada de analfabeta pra mim, não foi insulto, mas sim uma desinformação. Meu blog não é profissional, como a grande maioria da blogsfera também não é. Eu escrevo no papel toda noite, possuo diversos diários reais, palpáveis, e escrevo aqui, porque gosto, e sinceramente não vou deixar de escrever. Um beijo aos meus colegas blogueiros.

Pai eu te amo.

Senta aqui, do meu lado?!
É! Aqui!
Encosta a cabeça no meu peito, esquece tudo.
Sinta seu corpo leve, eu te amo.
Eu preciso que sinta isso.
Segura a minha mão, ela transpira amor.
Olhe para o alto, vê?
Mexa os pés, no mesmo sentido dos meus, vamos dançar parados?!
Olha pro meu coração, você pode olhar para ele? Agora?
Enxerga o que ele pede?
É! É! é isso!
Me ame.

Victor e Léo - Tem que ser você.
Vitor e Leo - Tem que ser você


sábado, 22 de março de 2008

branquinha q saudadih =/


"Algumas pessoas são a favor das baleias.Outras, das árvores.Nós gostamos mesmo é de cachorro.Os grandes e os pequenos.Os de guarda e os brincalhões.Os de raça e os vira-latas.Somos a favor dos passeios,das corridas e travessuras,de cavar, coçar, cheirar e brincar.Somos a favor de parques com cachorros,de portas para cachorro.E da vida de cão.Se houvesse um feriado internacionalem que todos os cãesfossem reconhecidos por sua contribuiçãopara a qualidade de vida na Terra,nós seríamos a favor também.Porque somos loucos por cachorro!"
eh isso ai
perfeitooo
pq pra mim eles sao tudaooo
pq ja cheguei a ter 4 caes numa msm ksa numa msm epoca
e era maravilhoso
pq eles nos tazem tanta alegriaaa
e infelizmente essa branquinha ai se foi
e eu me lembro dela todu dia
^^
e po fala em campanha
dorissssssss
por favor volta pra paula
^^
q todus seja muito felizes com seus bixinhus
e q nau tem
arrume um
vc nau ira se arrepender
tah?
bj pra vcsss
e.....
FELIZ PÁSCOAAAAAAAAAAAAAAA
:***

terça-feira, 18 de março de 2008

Eu sou Brasileiro, com muito orgulho, com muito amor! E põe amor nisso!

Hoje a caminho do trabalho dentro do ônibus, estava com meus fones no ouvido, com a música no volume 31. Foi quanto li o nome bordado na camisa do cara que estava a minha frente.

"NOMA MOTORS DO BRASIL" Foi o suficiente para eu lembrar dela até agora.

Eu repeti noma motors do Brasil o dia todo, juro! Vou justificar, calma!

Acho que pessoa mais patrióta que eu está para nascer.
E essa frase me fez lembrar da Copa, do Pan, das olimpíadas, do Cristo Redentor, das Cataratas..
enfim, do meu Brasil, do NOSSO Brasil.
Eu tenho um oruglho tão grande de ser brasileira que não cabe em mim.
Podemos ser um país corrupto, com falhas na saúde, educação..e tal.
Mas somos calorosos com os visitantes, animados no carnaval, religiosos, crentes em um futuro melhor. Paciente com as cagadas alheias, além de termos literalmente uma terra abençoada.
Uma terra fértil, que tem o melhor café do mundo, e onde nascem as canas responsáveis pela maior produção de açucar que existe.
Eu não sei se estão entendendo o que quero dizer, eu amo o Brasil, amo a sua arquitetura, a sua gente, essa mistura de raças, a nossa comida, o acarajé, a tapioca, o tucupi, o tacacá, a feijoada, o baião de dois, o "quejim" minero. Falando em Minas, aaaaaaaaaaaa os sotaques, que deliiiiiiciaaaa ouvir esses diversos sotaques.
É o carioca que fala DoiX, o mineiro que fala uai!, o paraense que diz poRta, e o baiano que canta "opaíó".

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada,
Brasil


Ahhh o nosso hino, existe algum outro mais bonito que esse?
O que dizer da energia que emana da nossa bandeira?
O verde e o amarelo que está no coração de cada um.

Queria expressar aqui o meu imenso amor ao Brasil, uma terra sofrida CLARO!
Como muitas, sem desmerecer nenhum país, todos tem suas belezas e virtudes.
E obvio que cada um puxa brasa pra sua sardinha.
Mas cá pra nós? O meu é um Pirarucú de mais ou menos uns 100kg.

Rsrsrsr.

Um beijo Brasileirinhos queridos da Ana.

Thanks pelos e-mails, não esperava apenas elogios, fico feliz que saibam xingar também.


BeiiiijO de carinho.

Fui.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Chuva...

Hoje procurei muito sobre o que escrever, confesso que estava quase desistindo.
Fui ao msn e disse a um amigo. "Fulano, me dê uma luz" a resposta foi.
"Ahh escreve sobre o que está sentindo." Pufttt..me lasquei.

Hoje era pra ser um lindo dia, mas choveu, e o turbilhão de emoções veio junto com a água que brotava das nuvens. E olha que nem estou de TPM.
Ver tv não ajudou, só tragédias, e atos heróicos que sempre acabam em morte.
Depoimentos de pessoas que deram a volta por cima na vida. Desliguei.
Ler, tampouco! As mesmas tragédias, só que transcritas nas páginas de uma revista.
Música? Vixxxxeee, a essa altura até um funk me faria chorar.
Me restou dormir, mas pra quê? se seria por 2 ou 3 horas, e depois teria que acordar outra vez, e "por a cara" na vida de novo.
Resolvi postar um lindo video de um menininho coreano que canta a música Hey Jude dos Beatles. Muito leve, e muito parecido com o meu estado de espirito de hoje.
Eu queria tocar violão bem devagar, embaixo de uma árvore.
Respirar ar puro 24 horas, e beber água sem cloro.
Tomar banho de chuva, dessa mesma chuva que caiu sem parar hoje, lavando a minha alma, e me fazendo sentir outra vez o cheiro da terra molhada.

Bom, mas deixando as lamentações de lado. Vamos á vida real.
Recebi hoje a indicação de um Meme*. Uma éspecie de corrente.

O Lucas me passou este meme* que já está famoso na blogosfera. Trata-se de pegar o livro mais próximo, ir até a página 161 e reproduzir aqui a 5ª. frase. O livro mais próximo de mim, e que tem mais de 161 páginas é Harry Potter e o Cálice de Fogo. Segue a frase:

- Bom dia! - Disse a etérea voz da professora ás costas de Harry, causando-lhe um sobressalto.

Para não quebrar, repasso ao Diom, ao Pedro e ao Rafael

Um Beijo de carinho á todos.


17



Gente, passando rapidinho pra dizer que hoje é aniversário da May, e que também o Dé e eu completamos 1 ano de namoro.

Vou postar uma montagem que fiz com o Fred e com o Jason.
Prometi, então tá aqui.

Um beijo.

May feliz niver.

Dé, eu te amo!

sábado, 15 de março de 2008

Ditadura.

Hoje ouvindo a minissérie Queridos Amigos, que passa bemmmm tarde na globo, escutei a moça repetindo por váárias vezes, "Isso aqui não é o DOI-CODE, isso acabou."
Tá o que é DOI-CODE moça?Fiquei curiosa agora, pode me contar. Então fui atrás do significado da palavra, e cá pra nós, nenhum pouco empolgante. Foi uma época difícil na vida de muitos brasileiros. Então...
Voalá.

O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, mais conhecido pela sigla DOI-CODI, foi o órgão de inteligência e repressão do Governo Brasileiro durante o regime inaugurado com o golpe militar de 31 de Março de 1964, os chamados "Anos de Chumbo".

Destinado a combater o chamado "inimigo interno", como a de outros órgãos de repressão brasileiros no período, a sua filosofia de atuação era pautada na Doutrina de Segurança Nacional, formulada no contexto da Guerra Fria nos bancos do National War College, instituição norte-americana, e aprofundada, no Brasil, pela ESG - Escola Superior de Guerra.

Estabelecido em praticamente todos os estados da federação, em São Paulo as suas instalações eram localizadas na Rua Tutóia, onde atualmente funciona o 36° Distrito Policial.

O DOI-CODI surgiu a partir da Operação Bandeirante - OBAN, criada em 1969 com o objetivo de coordenar e integrar as ações dos órgãos de combate às organizações armadas de esquerda.

Cada Estado tinha o seu DOI, subordinado ao CODI, que era o órgão central. Os DOI reuniam, sob um único comando, militares das três Armas e integrantes das Polícias Militares Estaduais, Policia Civil e Federal. Na década de 80, os DOI foram renomeados SOP - Setor de Operações.

Dá um frio na espinha só de ler.

;**

Muaaaaaaack!

quinta-feira, 13 de março de 2008

A dança que durou uma vida...

Não se julga um livro pela capa. Literalmente verdade.

Hoje passando pelo Sebo Cultura, onde sempre observo os livros expostos na vitrine.Vi um livro da capa azul, esse ai da foto.
Entitulado Carta a D.
Mas nem dei bola, tipo uma capa sem nexo, e que não informava patavinas do que havia dentro aos leitores. Quando cheguei no salão, a revista Época já estava lá em cima do balcão, eu a superficialmente, pulando algumas págias e tal.
Quando vi uma reportagem pequena sobre o escritor André Gorz . Fiquei encantada com a história do livro Carta a D. de (Dorine) sua esposa durante 53 anos. Mas na revista havia apenas uma resenha do livro, e a fome de informação era tanta que resolvi pesquisar na internet. Também não consegui muita coisa, mas grande parte do que eu procurava.
"Carta a D. - História de um amor", de André Gorz, escritor austríaco, teórico de movimentos de esquerda dos anos 60, é um relato da vida do autor ao lado de sua esposa, vítima de uma doença degenerativa.

Carta a D." recorda sob a ótica de Gorz o relacionamento de 54 anos que viveu com sua esposa Dorine Keir, vitima de um erro médico que lhe causou uma doença grave.

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traître, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.

Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes? Por que eu não disse o que me fascinou em você? Por que eu a apresentei como uma coitadinha, "que não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês e que sem mim teria se destruído", se você tinha o seu círculo de amigos, fazia parte de um grupo de teatro de Lausanne e era esperada na Inglaterra por um homem determinado a se casar com você?

Na verdade, não explorei em profundidade aquilo a que me propunha ao escrever Le Traître. Para mim, ainda restam muitas questões a serem compreendidas e esclarecidas. Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.

Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas.

Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: "Não tenho chance nenhuma com ela". E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: "He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest".

Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.

Meu inglês era desajeitado, mas passável. Tinha se enriquecido graças a dois romances americanos que eu acabara de traduzir para a editora Marguerat. Durante essa nossa primeira saída, percebi que você havia lido um ito, antes e depois da guerra: Virginia Woolf, George Eliot, Tolstói, Platão...

Falamos de política britânica, das diferentes correntes dentro do Partido Trabalhista. De imediato, você já sabia distinguir entre o que é acessório e o que é essencial. Diante de um problema complexo, a decisão a tomar sempre lhe parecia óbvia. Você tinha uma confiança inabalável na justeza dos seus julgamentos.

De onde você tirava essa segurança? E, no entanto, você também teve pais separados; deixou-os cedo, um depois do outro; nos últimos anos da guerra, morou sozinha com Tabby, o seu gato, e dividia com ele a sua comida racionada. E, por fim, saiu do seu país para explorar outros mundos. Em que poderia lhe interessar um Austrian Jew sem um tostão?

Eu não entendia. Não sabia que ligações invisíveis se teciam entre nós. Você não gostava de falar do seu passado. Pouco a pouco, compreenderei que experiência fundadora nos tornou subitamente próximos um do outro.

Nos encontramos de novo. Fomos dançar mais uma vez. Vimos juntos Le Diable au corps, com Gérard Philipe. Há no filme uma seqüência em que a heroína pede ao sommelier para trocar uma garrafa de vinho já aberta e bem consumida porque, segundo ela, dava para sentir o gosto da rolha. Tentamos reeditar essa manobra numa boate, e o sommelier, depois de verificar, contestou o diagnóstico. Diante de nossa insistência, ele nos mandou às favas, com muita determinação: "Nunca mais ponham os pés aqui!". Fiquei espantado com o seu sangue-frio e a sua sem-cerimônia. Pensei comigo mesmo: "Fomos feitos para nos entendermos". Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você.

Não tínhamos pressa. Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.

Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.

Durante as semanas que se seguiram, nos reencontramos quase todas as noites. Você dividiu comigo o velho sofazinho afundado que me servia de cama. Ele tinha apenas sessenta centímetros de largura, e nós dormíamos apertados, um contra o outro. Além do sofazinho, meu quarto só tinha uma estante de livros feita de tábuas e tijolos, uma mesa enorme, atulhada de papéis, uma cadeira e um fogareiro. Você não se espantava com o meu cenobitismo. Também não me espantava que você o aceitasse.

Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. Os valores que dominaram a minha infância não existiam nele.

Esse mundo me encantava. Eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha. Falando com você em inglês, eu fazia minha a sua língua. Até hoje continuo a me dirigir a você em inglês, mesmo quando você responde em francês. O inglês, que eu conhecia principalmente por você e pelos livros, desde o início foi para mim uma língua particular que preservava a nossa intimidade contra a irrupção das normas sociais circundantes. Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor.

A coisa não teria sido possível se você tivesse um sentimento forte de pertencimento nacional, de enraizamento na cultura britânica. Mas não. Você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. Eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria Grã-Bretanha.

Nós nos interessamos passionalmente pelo resultado das eleições na Grã-Bretanha, mas só porque o que estava em jogo era o futuro do socialismo, não o do Reino Unido. A pior injúria que alguém poderia lhe fazer era explicar pelo patriotismo o partido que você tomava.

Disso eu ainda teria bem mais tarde uma prova, durante a invasão das Malvinas pelas forças argentinas. A um ilustre visitante, que pretendia explicar pelo patriotismo o partido que você havia tomado, você respondeu com rudeza que só os imbecis não conseguiam ver que a Argentina levava aquela guerra adiante para lustrar o brasão de uma execrável ditadura militar e fascista, da qual, por fim, a vitória britânica precipitaria o desmoronamento.

Mas estou antecipando as coisas. Durante aquelas primeiras semanas, encantava-me a liberdade que você manifestava em relação à sua cultura de origem, mas também a substância dessa cultura, tal como ela lhe foi transmitida quando pequena. Uma certa maneira de zombar das provações mais sérias; um pudor travestido de humor, e mais particularmente as suas nursery rimes ferozmente non-sensical e sabiamente ritmadas. Por exemplo: "Three blind mice/ See how they run/ They all run after the farmer's wife/ Who cut off their tails with a carving knife/ Did you ever see such fun in your life/ as three blind mice?".

Eu queria que você me contasse a sua infância em sua realidade trivial. Eu soube que você cresceu na casa do seu padrinho, uma casa na praia, com jardim; com o Jock, o seu cachorro, que enterrava ossos nos canteiros e depois não mais conseguia encontrá-los; soube que seu padrinho tinha um receptor de rádio cujas pilhas precisavam ser recarregadas toda semana. Soube que você costumava quebrar o eixo do seu triciclo descen- do o meio-fio sem se levantar; que na escola você resolveu escrever com a mão esquerda, e se sentou sobre as duas mãos, desafiando a professora que insistia em forçá-la a escrever com a direita. Seu padrinho, que tinha autoridade, falou que a professora era uma imbecil e passou-lhe uma descompostura. Compreendi então que o espírito da seriedade e o respeito à autoridade seriam sempre estranhos a você.

Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de "experiência fundadora": a experiência da insegurança.

A natureza desta não era a mesma para você e para mim. Não importa: para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós. Nós tínhamos de assumir a nossa autonomia, e eu descobriria em seguida que você estava muito mais preparada para isso do que eu.


André e Dorine fizeram um pacto de suícidio, foram encontrados mortos de mãos dadas em sua velha cama.

Faça aqui download das primeiras páginas do livro

Espero que tenham gostado, pq eu amei.
Beijo pra vocês!